Um pouco da história do Mês de Maria

Do livro:
A Alma Gloriosa de Maria
Frei Henrique G. Trindade, O.F.M. 
Livros de 1937

Como prefácio*

Muito devemos varões
loar a Santa Maria,
que sas graças e seus dões
da a quem por ela fia.
(Cantigas de D. Affonso, o sábio)

O nosso pobre mês de Maio, de primeiros frios, de chuva e vento, é no hemisfério setentrional o mês do despertar glorioso da Natureza. A primavera, por toda a parte, irrompe vitoriosa, numa profusão deslumbrante de flores e perfumes. E lá na Europa, — naquela Europa à qual pertencemos, no dizer de Nabuco, pelas camadas estratificadas do nosso espírito — o mês de Maio é sinônimo de beleza e poesia.
A piedade dos cristãos d’além-mar consagra a Nossa Senhora este mês privilegiado.
E realmente, melhor parece que não poderá ser nem a escolha nem a oferta: à Virgem Imaculada super omnem speciosa, o mês régio da ressurreição e das flores.
Interessante, sem dúvida, é investigar as origens do mês de Maria, acompanhar como um rito pagão se foi cristianizando, pouco a pouco, através dos séculos, até alcançar a forma definitiva da nossa devoção atual.

Roma pagã festejava com grandes solenidade o retorno da primavera. Eram, em princípio, festas campesinas que manifestavam a tendência do homem para se pôr em contato com a natureza benigna e ridente. Nas ambarvalia, os arvaes, sacerdotes instituídos por Numa Pompilio, percorriam os campos em honra da deusa Dia, mui provavelmente Céres, dançando e entoando hinos sagrados. Nas floralia celebradas dos últimos dias de Abril aos primeiros de Maio, realizavam-se danças e sacrifícios em honra de Flora e uma moça escolhida para ser levada em triunfo pelas companheiras, através os campos floridos, era a Rainha de Maio.
Bem depressa, como todas as manifestações do paganismo, degeneraram essas festas em pura bacanal. No século III perdem-se os últimos traços das ambarvaes, mas as festas em honra de Flora persistem, provocando os mais veementes protestos da parte de Lactancio e de S. Agostinho. Nem se pense que, morto o paganismo, desapareçam por completo os resíduos de tais usanças: em pleno século XVI as verberações de S. Agostinho encontravam ainda um eco nos sermões inflamados de S. Carlos Borromeu.
Não obstante, as festas de Maio foram perdendo, com o correr dos tempos, o caráter e o pensamento profundamente pagãos, e tornavam-se festas indiferentes, mera expressão da alegria popular, rejuvenescida com o aspecto ridente da primavera. Assim, por exemplo, encontramos nas tradições medievais da ilha de Man, que no primeiro dia de Maio era costume elegerem-se duas mocinhas, a Rainha de Maio e a Rainha do Inverno e a essas duas acompanhavam grupos de rapazes, travando combates simulados figura das últimas lutas do inverno exausto com a primavera exuberante.
Toda a Europa Ocidental conheceu na Idade Média o costume de plantar o maio. Quer no português ou no francês como nas línguas germânicas, o maio era um galho de árvore verdejante, ou um simples pau enfeitado de flores e de fitas, que se plantava no dia 1 de Maio, diante da casa de alguém particularmente estimado. Os rapazes plantavam o maio à porta das noivas e a Rainha de Maio — em Portugal dizia-se abreviadamente a Maia — era alvo de graciosas manifestações.
Não era dos moldes daqueles tempos de antanho, de fé ardente e costumes ingênuos, excluir dos festejos profanos a ideia religiosa. Assim vemos, numa evolução simples e lógica, a corporação de S. Ana e S. Marcelo, em Paris, plantar um maio no adro de Notre-Dame. Era a alma cavalheiresca da Idade Média — alma feita de violências e de candura, um pouco de bandido e um pouco de criança — ciosa de associar a Mãe de Deus a todas as ocorrências de sua vida, para que não se dissesse que a Dama dos Céus era menos honrada do que as damas da terra.
Para corrigir os abusos que ainda pudessem subsistir nas festas primaveris, organizaram-se, em algumas cidades da França, procissões que iam à procura de flores e de folhagens para enfeitar as igrejas, principalmente as consagradas a Nossa Senhora. Na Itália, particularmente na Toscana, cantava-se o maio: grupos de homens e mulheres alternavam canções e improvisos em honra da Madonna.
O maio, então, já não era apenas um simples galho de árvore. Espiritualizara-se, adquirira um sentido místico: do fundo Saxônia, o Bem. Henrique Suso dizia que nosso maio é o madeiro da Cruz” e lembrava que a nossa festa do maio era no dia 3 do mês, quando celebra a Igreja a invenção do S. Lenho. Mais tarde, ainda da Alemanha, nos vem um livro de meditações sobre a Paixão, tendo como titulo O Maio Espiritual. Escrevera-o um franciscano.
A ideia cristã triunfava. Flora e a Rainha de Maio já pertenciam ao passado e as honras que lhes haviam sido um dia tributadas, transformavam-se num culto de piedade e poesia à Virgem Mãe de Deus. Já pelos meados do século XIII, D. Affonso, o Sábio, — don Affonso de Castela, de Toledo, de Leon, Rey e ben de Compostela ta o reyno Daragon — dedicara a Nossa Senhora uma das suas cantigas: Ben vennas Mayo. E um pouco mais tarde, Henrique Suso, o grande místico e devoto filial de Maria, no correr de Maio, enfeitava de flores a imagem de Nossa Senhora, especialmente no dia 1o, e aproveitava-se da ocorrência para renovar a sua consagração á Mãe Celeste.
Com o Renascimento, vamos encontrar, em Roma, um santo entre todos simpático e popular, um santo da juventude, S. Filipe Neri. Conta-se que o santo fundador do Oratório costumava no mês de Maio acompanhar os meninos ao pé do altar de Maria, e animava-os a oferecer à Mãe celeste, juntamente com as flores da primavera, as flores das suas virtudezinhas juvenis.
Há mesmo, tocante a S. Filipe, uma lenda graciosa. Afligia-se o santo,pensando nos perigos a que se expõe a juventude, nos dias luminosos da primavera, quando a exuberância da vida lá fora, nos campos e nos jardins, provoca nos organismos novos uma reação nem sempre anodina. Apareceu então Nossa Senhora ao santo e recomendou-Ihe que aconselhasse aos moços uma devoção toda particular em sua honra durante o mês de Maio. Assim o fez S. Filipe e redigiu o programa do mês, incluindo nele, para cada dia, cânticos e a reza das ladainhas diante de uma imagem da Virgem Santíssima; a assistência ao santo sacrifício da Missa, a vigilância cristã e finalmente, como fecho de ouro, a frequencia dos sacramentos e a consagração à Imaculada.
Como quer que fosse, o exemplo de S. Filipe foi imitado. Nos colégios dirigidos pelos PP. da Companhia de Jesus, em Colônia e depois em Roma, os alunos seguiam piedosamente o costume de honrar a Mãe de Deus, com redobrado fervor, no mês de Maio.
Num opúsculo editado em 1654, um jesuíta, o P. Nadasi, ventila, pela primeira vez, a ideia de consagrar um mês do ano à Nossa Senhora.
Não se trata ainda do mês de Maio, mas de qualquer mês, ao gosto e cômodo do leitor: Theophilus Marianus, sive artes ac exercitationes XXXI, in mensem unum digestae.
Coube a um religioso franciscano, o Pe. Lourenço Schnüssis, o mérito de fundir a ideia de honrar a Nossa Senhora no mês de Maio, com a ideia de consagrar-lhe, com exercícios especiais de devoção, um mês a fio. Publicou esse padre, em 1692, um livrinho com uma coletânea de 30 poesias em honra de Nossa Senhora, Mayen-Pfeiff, e ofertou-o à infanta D. Leonor, imperatriz da Alemanha. Era, em suas linhas gerais, nosso atual mês de Maria.
Caiu a ideia em boa terra e germinou. Coisa de um quarto de século mais tarde, em 1724, o Padre Dionisi, S. J. publicou em Parma e reeditou em Roma o primeiro mês de Maria, na acepção moderna do vocábulo: Il mese di Maria, ossia il mese di Maggio consegrato a Maria. Continha o livro uma série de devoções oferecidas às famílias para a celebração do mês de Maio e começava nestes termos: “No        aposento doméstico, onde a família se costuma reunir para rezar, enfeitar-se-á, na véspera do mês, a imagem da SS. Virgem; erguer-se-á um altarzinho que será enfeitado do melhor modo possível”. O piedoso exercido será curto, afim de não sobrecarregar a ninguém e cada noite será tirada por sorte a virtude especial proposta para o dia seguinte. Farse-á também uma leitura que há de servir como preparação para a meditação da manhã seguinte. Devoção profundamente familiar, sem nenhum caráter litúrgico — coisa que, aliás, nunca teve nem tem ainda — o mês de Maria seria um remate da oração da noite no lar cristão, uma saudação afetuosa dos filhos á Mãe muito amada.
Entrementes, porém, uns cinco lustros antes que publicasse o seu livro o P. Dionisi, inaugurava-se publicamente o mês de Maria em Nápoles, numa igreja, com cânticos, à tardinha, em honra de Nossa Senhora e Benção do SS. Sacramento. E essa igreja era franciscana e fora fundada, fazia séculos, por uma infanta portuguesa, casada com um rei poeta e amigo de poetas: a igreja de S. Clara, doada aos napolitanos pela rainha D. Sancha, mulher de Roberto de Anjou, o Pio, amigo de Petrarcha...
Outro livro, ainda de um jesuíta, do P. Francisco Lalonna, veiu dar ao mês de Maria a sua feição definitiva, consagrando exclusivamente a Nossa Senhora as 31 meditações do mês de Maio. Publicado em Palermo, em 1758, o opúsculo, Il mese di Maggio consecrato alle glorie dela gran Madre di Dio, não teve boa acolhida. A supressão da Companhia ainda mais dificultou a sua difusão. Contudo, 20 anos mais tarde, foi traduzido para o francês e em seguida para o inglês e o alemão, e tornou-se um dos propugnadores da vulgarização do mês de Maio.
Da Itália passou a devoção à Espanha e depois à França, onde muito trabalhou para difundi-la o P. Muzarelli, autor de um livrinho do mês de Maria conhecido no Brasil. Em 1830, o mês de Maria já era vitorioso e espalhado em toda França. Em 1837 foi celebrado pela primeira vez em Viena e em 1843 em Munique. A Bélgica e a Suíça de muito já o haviam adotado. Para tanto concorrera, sobretudo, a aprovação oficial e as indulgências concedidas pelo Papa Pio VII num breve de 21 de Março de 1815.

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No Brasil, recebemos da Europa o mês de Maria, adotamo-lo e fizemos dele uma das nossas devoções mais caras e tradicionais.
Aceitamo-lo, porém, tal como no-lo ofereceram, sem reparar no desproposito que havia, para nós, em dizer que consagrávamos a Nossa Senhora o mês de Maio, por ser este o mês das flores.
No meu Estado do Norte — extuante de sol e luz — e assim também na melhor extensão do Brasil, o mês de Maio está longe de ser um mês ameno e primaveril. E os devotos de minha terra que vão o mês inteiro, pela manhã ou à tarde, louvar a Nossa Senhora, devem, para chegar à igreja ou capela, arrostar a chuva, o vento e a lama das estradas...  A assiduidade aos exercidos marianos, 31 dias seguidos, pode, em tais circunstâncias, assumir, às vezes, laivos de heroísmo.
Flores em Maio nesta terra de perene primavera? Nos altares, há muitas...  de papel. Porque das outras, das vivas, somente poucas escapam: a maior parte a chuva arruína e o vento espalha pelos canteiros encharcados...
Um poeta, o nosso Durval de Moraes — e não fora ele poeta — dá ao nosso mês de Maria a sua verdadeira interpretação. Fala-nos, ele, algures, da sensação de conforto e bem estar que provamos, numa noite de Maio, deixando lá fora a intempérie e entrando na igrejinha tépida e iluminada: é como si realmente a Mãe do céu nos acolhesse no seio carinhoso, maternalmente. Então já não importa o inverno nem assusta o temporal, porque já passou o inverno — jam hiems transiit — e temos, para a vida e para a morte, uma proteção materna, um Refúgio, uma Consoladora...
Não é o poético “mês das flores” que nós consagramos a Nossa Senhora: é simplesmente um mês entre os doze do ano, como à escolha dos fiéis propunha, no século XVII, o P. Nadasi. Se eu soubesse compor versos — e não os escrevo porque não sei — haveria de escrevê-los para serem cantados em nosso mês de Maria. Rejeitaria toda a ideia de flores, — terrestres, já se vê, — e iria inspirar-me na inclemência do inverno. Em lugar de cantar uma profusão hipotética de flores, diria simplesmente a Nossa Senhora que olhasse misericordiosa para os filhos reunidos ali, apesar da chuva e do temporal, com o único fito de exprimir-Lhe o seu amor. Pedir-lhe-ia que abençoasse os sacrificiozinhos feitos com tanto denodo e entusiasmo...
A chuva é o símbolo da fertilidade. Sem ela, a terra ressequida de sol não produziria o nosso sustento. Maria, nossa Mãe, é a portadora da nossa fecundidade espiritual; sem Ela não teríamos nossa força, nosso sustento, o Pão dos Anjos que alimenta a nossa alma. Já a nuvem de Elias, desfeita em chuva refrigerante e fecundadora, era uma imagem da Virgem que ia dar à luz.
No livro dos oráculos de Isaías, está dito que a palavra de Javeh é como a chuva que, tendo baixado à terra, só volta ao céu depois de haver fertilizado os campos, dado a semente ao lavrador e o pão a todas as criaturas: a palavra de Javeh não queda infrutífera e faz tudo quanto quer. Da proteção de Maria não se pode afirmar o mesmo? Jamais as nossas orações fizeram baixar até nós a Mãe de Jesus, sem que Ela faça germinarem as nossas boas resoluções e no terreno safaro da nossa alma deixe florirem as virtudes. Maria é a chuva benéfica que nos amaina para receber a Jesus.
Se uns podem cantar as flores, por que não poderemos nós, em honra de Nossa Senhora, cantar a chuva em nosso mês de Maio tropical?
E depois eu quisera — mas quem sou eu para querer tanta coisa? — que um sopro de espírito litúrgico passasse pelo nosso mês de Maria. Maio é um mês todo impregnado ainda dos Mistérios da Redenção, nele coincide sempre a festa da Ascensão e muitas vezes a de Pentecostes. Seria tão edificante acompanhar os sentimentos de Nossa Senhora naqueles dias benditos em que Ela gozava do Divino Filho ressuscitado; partilhar com Ela os transportes de jubilo à subida de Jesus ao céu; finalmente com Ela recolhermo-nos ao Cenáculo e esperar, na oração, a vinda do Espírito Paráclito. Maria nos aprofundaria assim sempre e mais no mistério de Jesus.

Maria Desideria
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(*) Transcrevemos este belo artigo de Maria Desideria, estampado no N° 9 das “Vozes de Petrópolis" de 1932, não só pelo seu valor intrínseco, como em homenagem á grande escritora baiana falecida, santamente, em Florianópolis aos 22 de janeiro de 1933.

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